Qual a importância da arborização urbana?
Agostinho Batista de Freitas - Estrada - 1979
"Houve tempos em que era de praxe o passeio ao final da tarde, pelas veredas das cidades, para a observação das árvores e dos arbustos em pleno florescimento. Homens e mulheres sabiam, muitas vezes empiricamente, quando a paineira dava flores, quando o ingá gerada seus doces frutos, ou quando as primaveras e outras espécies comuns em nossas cidades sofriam alguma ransformação em seus ciclos de vida. Muitas goiabeiras foram palco para as mais diversas brincadeiras infantis. E, convenhamos, quem não subiu em alguma árvore, por menor que tenha sido, para apanhar amoras, abacates, ou as referidas goiabas repletas de bicadas de pássaros? Nossas avós talvez relembrem aqueles dias em que sentir o aroma de flores constituia fato normal na vida de qualquer cidadão.
Os tempos agora são muito diferentes. Essas atividades, hoje desconhecidas da maioria dos habitantes das grandes cidades, revellam, na verdade, algo que transcende simplesmente o senso comum e a observação empírica. A arborização de praças, parques públicos e ruas é algo necessário e de extrema importancia para a sobrevivência de vários animais e outras espécies vegetais, que usam a cidade como habitat natural ou como rota durante a imigração. Em ecologia, cunhou-se o termo 'floresta urbana', ou seja, o conjunto de árvores e arbustos que compõem a área verde das cidades, em meio ao trânsito, aos postes de luz e às casas. Mais que uma mera fonte de prazer e atividade lúdica, a arborização de ruas e outras áreas comuns das cidades é um gerador de alimento para diversas espécies de animais - cuja dieta depende dos frutos e do néctar de inúmeras árvores nativas, além das inúmeras espécies que foram sendo intoduzidas ao nosso país por tantos anos (as chamadas espécies exóticas, em oposição às espécies nativas). Várias cidades brasileiras possuem espécies quem mantém as tuas floridas praticamente o ano todo. (...)
Muitas pessoas reclamam junto ao poder municipal ou órgão responsável pela manutenção das áreas verdes quando certa árvore danifica as calçadas, ou quando as folhas e as flores de certas espécies arbóreas sujam o quintal, a varanda e a churrasqueira que acabou de ser limpa. (...) É verdade que muitas plantas podem causar transtornos sociais. Tanto espécies nativas quanto exóticas podem trazer problemas para as instalações de uma cidade. O sistema das raízes, ou crescimento exagerado dos ramos ou o tamanho e dureza dos frutos, sem contar outras características particulares das espécies vegetais, podem constituir problemas sérios que as autoridades e as equipes que realizam a arborização das vias públicas não estudam previamente, antes da execução de projetos de arborização. (...) Embora a lista de "desvantagens" da arborização possa ser grande, e talvez equivalente aos pontos vantajosos, boa parte dos estudiosos do assunto adverte para algo muito simples: o conhecimento acerca da biologia vegetativa e repordutiva das árvores, sejam elas nativas ou introduzidas, eliminaria quase que a totalidade dos problemas causados pelas espécies em questão, já que as informações serviriam como um plano-diretor de planejamento paisagístico e florístico nas cidades. Características gerais como preferência por ambientes, rusticidade, desenvolvimento de raízes e ramificação da copa, valor paisagístico e resistência a pragas e moléstias são parâmetros que podem ser analisados e avaliados quando da escolha pelas espécies que definitivamente farão parte da floresta urbana e, consequentemente, acompanhar a dinâmica da cidade por várias décadas.
Por maiores que sejam as reclamações dos munícipes acerca dos estragos de certas árvores, ou da "sujeira" que as mesmas possam causar sobre seus carros e quintais, e inegável a sensação de bem-estar que uma rua arborizada traz quando comparada a outra totalmente desprovida de vegetação. Quem já passou por cidades cuja floresta urbana é muito bem tratada, como Maringá ou Campinas, por exemplo, não pode negar a importância das árvores e arbustos como cobertura vegetal das vias públicas. Cabe a população, junto aos órgãos públicos responsáveis, o planejamento e a manutenção das espécies vegetais implantadas na arborização pública, que se preza tanto a um simples "olhar as flores abrindo" quanto a um sofisticado bird-watching vespertino, como binóculos e equipamento de gravação."
Nota:
A expressão bird-watching (literalmente "observação de pássaros") pode ser referida tanto a pesquisadores quanto ao público leigo interessado em estudar, ver e acompanhar o comportamento de pássaros que visitam as árvores e demais espécies, em suas matas nativas ou na floresta urbana.
Fernando Santiago dos Santos
Doutorado em educação pela USP, mestre em História da Ciência pela PUC-SP, bacharel e licenciado em Ciências Biológicas pela Unicamp, tradutor, intérprete, professor e diretor de educação ambiental da RPPN (Reserva Particular de Patrimônio Natural) Rizzieri/Fundação Pró-Verde (São Sebastião, SP).